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Reticências.


*Coloque a música para tocar antes de ler o texto


 Léo tinha os olhos da cor de esmeraldas, tão hipnotizantes que Lia não conseguia olhar para outro lugar. Aliás, conseguia por segundos desviar, mas aos poucos já estava olhando novamente pro mesmo rapaz. 
 Lia estava de batom caqui, assim como na música Ali. E a música parecia ter sido escolhida a dedo para éLês, para esse momento. 
 Os olhares sentiam necessidade um do outro. Aquela sensação de paz. De encontro. As milhões de possibilidades. Os milhões de hormônios. Haviam sete bilhões de pessoas no mundo, e naqueles segundos somente uma lhes despertavam interesse. A curiosidade de saber o nome, a idade, a cor favorita, o cantor predileto, a cidade de onde veio, o porquê de estarem no mesmo bar. 
 A curiosidade de ambos era notória, qualquer um que olhasse de qualquer outra mesa também notaria, assim como eu notei. Até aquela caipirinha que Lia tomava em companhia das amigas e a cerveja que Léo tomava com seus amigos se desejavam. Precisavam. Necessitavam. 

 Reticências. 
 Lia namorava, Léo namorava. Impossível essa possibilidade. Impensável. Indispensável. Eles deveriam se conhecer. Deveriam se ver. Deveriam estar juntos.
 Ambos éLês, estavam satisfeitos com seus respectivos namorados, sabiam que não eram relacionamentos efêmeros (talvez fossem), mas cada um deles tinha exatamente 2 anos e 7 meses, e estranhamente eles faziam aniversário de namoro no mesmo dia. Até nisso descombinavam em combinar.
 Lia era fria, gostava de gatos, amava dias de chuva e de montanhas. Aliás, tinha uma paixão tremenda em olhar pro horizonte. Mas, medrosa que era, nunca havia ido em quaisquer lugares em que não houvesse um mínimo de segurança. Lia era incrível, mas não tinha certeza disso.
 Léo era romântico, gostava de poemas, tinha um peixe no aquário, surfava e andava de skate. Enfim, ele nasceu pra viver aventuras. Ansiava descobrir o mundo. Sagitariano, talvez meio insensível nas horas erradas. Imprevisível.
 Suas fronteiras iam além das suas possibilidades... Seus desejos impossíveis se desatavam na realidade que viviam.
 Meu doce e possível casal. Não se conheceram, mas se amaram. Amaram-se como se um houvesse nascido para o outro, como se fossem melhores amigos, como se fossem almas gêmeas. A platonicidade tornou o momento eterno. Os olhares foram eternizados. Talvez eles ainda se encontrem, mas se isso acontecer, acredito que acabariam brigando. O amor deles nasceu pra ser assim. Pra não acontecer. Pra não morrer. Não houve nenhuma traição, foi apenas instinto de ser feliz e querer fazer algo diferente. Mas nada fizeram. O sentimento nasceu apenas pra ficar guardado, junto com todos os bons sentimentos, para nunca se esquecerem que, algum dia foram amados. E quem sabe ainda não são?... 

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