Olhei pela janela, amanheceu mais um dia. Sábado. Dia que acordo cedo por não ter aula. Acordo espontaneamente antes das oito da manhã. Ligo a televisão, e já começo minhas horas diárias de desenhos. Tom e Jerry. Pica-pau. Cavalo de Fogo. Punky, a levada da breca. Então, comi biscoito. Vi mais desenhos. Almocei. Peguei minhas bonecas. Criei. Viajei. Imaginei conversas. Falei sozinha. Fiz comida. Cuidei da casa. Fiz compras. Fui mãe solteira. Fiz comida. Varri. Limpei. Baguncei. Deixei as bonecas. Montei lego. Pisei em alguma pecinha. Senti dor. Juntei o lego. Fui médica. Tive pacientes. Carimbo. Letra feia. Fiz dinheiro com folha de caderno. Fui rica. Sai. Agora sou uma exploradora. Saí no mundo. Cacei borboletas. Fiz comidinha com brotinhos de mangas e folhas, "para sobreviver". Desisti da natureza. Peguei meu patinete. Andei. Cansei. Bebi água. Peguei o patins. Dei umas voltas. Descansei. Montei minha piscina de plástico. Entrei na água. Fiquei com fome. Biscoito. Brinquei de Barbie. 17 horas. Tomei banho. Assistir televisão. Novelas. Miojo. Mais novelas. 21 horas. Dormir.
- Oi, somos alunas aqui da faculdade e vamos te atender hoje. O que te trouxe aqui? - Dor no peito. O ambulatório era de cardiologia, mas juraria que se eu fosse psiquiatra a atenderia melhor. Colhemos a história. - A senhora fuma? - Três maços por dia. A carga tabágica era de mais de 100 anos/maço. Porém, tudo culpa da ansiedade. O que poderíamos fazer? Sua impaciência. Sua vontade de sair do consultório para mais um trago era evidente. Ela saiu. Nós esperamos. O médico, enfim, chegou. Discutimos o caso. Passamos exames cardiológicos, um eletro daqui um eco dali. E assim, diagnosticamos problemas do corpo, mas jamais descobriremos da alma. Seu sofrimento. Sua solidão. Tudo que passamos pode ter sido em vão. Agradecemos. Ela agradeceu. A consulta terminou, mas a lição ficou. A consulta pode até ter sido em vão, mas ela me tocou de coração.

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