Pular para o conteúdo principal

Chuva de verão


Chuva. Não sei o porquê, mas quero começar esse texto frisando que havia muita chuva. Era mais uma dessas de verão, que caem sem fim. Em que os céus choram alegrias ou tristezas... Ou apenas uma das vezes que as lágrimas saem simplesmente por nada, apenas pra aliviar a tensão.
 Em uma dessas ruas escuras na minha querida cidade, uma dessas solitária, silenciosa, sigilosa. Uma rua que ninguém quer ficar, em que pessoas não suportam passar, uma dessas que por si só é triste. Mas, era o lugar que Amélia havia escolhido para repousar, para pensar, para sentir aquela dor. Sua dor momentânea precisava de um lugar pra ficar. 
 Estava escuro, já se passava das dez. Ela estava sentada, um tanto que desleixada, magoada, sentida... Com lágrimas que se misturavam a chuva, e sentia dor, a pior dor que existe. A dor da perda. E havia sangue em suas mãos...
 Amélia sempre foi uma menina inteligente, questionadora das coisas, queria saber o porquê de tudo. Ela era uma garota que sabia suportar as coisas, que tinha um psicológico inabalável. Tão inabalável que acabara de ser abalado. Mas, continuo acreditando que ela era forte e ágil. Ela cresceu junto com os meninos e por isso acreditava que era forte, e acabava por ser mesmo. Acho que ela acreditava muito nela, mas o erro dela era acreditar demais nas pessoas, e o pior nas pessoas erradas.
 A minha menina havia perdido os pais em um acidente há pouco mais de um ano, e como se não bastasse nessa noite acabava de perder a pessoa que mais a amava. Seu irmão mais velho, acabara de partir.
 Ela era uma pessoa muito apegada ao irmão, se preocupava com aquele garoto, mas ele vivia se metendo em encrencas. Ela parecia ser a mais velha, ela que assumia as responsabilidades. 
 Desde que perderam os pais, Eric havia ficado transtornado. Ele havia parado de se meter em tantas quanto antes, se dedicava realmente a Amélia e em fazê-la feliz. Porém, quem disse que seus amigos não eram oportunistas? Os amigos dele, na época que ele mais precisou, se afastaram. E agora estavam todos atrás dele novamente, queriam que ele voltasse a ser o Eric da galera, o Eric que se metia em furadas. Ele havia mudado e ninguém havia notado.
 Um dos garotos, o seu melhor amigo ou pelo menos o que dizia ser, havia entrado na sua casa procurando droga ou bebida, ou qualquer coisa que pudesse vender pra ter dinheiro... Estava fora de si. Roubando para suprir uma necessidade, a de se drogar. Eric quando o viu espantou-se, nunca havia imaginado que Rogério faria isso. Eric tentou pegar a arma da mão de seu suposto amigo, mas falhou. Agora estava indefeso, com as mãos para cima, tentando evitar que Rogério cometesse essa loucura. Enquanto isso Amélia se escondia na cozinha, só observando a movimentação pelo espelho da sala.
 Rogério hesitou. Por um momento lembrou da infância e das brincadeiras. Lembrou de sua vida, um flash. Mas, de que adiantou? Ao ver que Amélia se aproximava, apertou o gatilho. Instintivamente. Um susto. Um estrondo. E acabava de dar fim na vida de seu amigo, de uma das pessoas mais importantes do seu mundo. 
 Amélia correu para junto do irmão. Lágrimas rolavam em seu rosto. Não acreditava no que estava acontecendo. Rogério já havia sumido. Não teve forças para ir atrás dele, ou para ligar pra polícia. Amélia estava ensanguentada. Com sangue do seu sangue. O tiro foi no local exato, exato para acabar com uma vida. 
 Os vizinhos a essa altura, já haviam ligado para polícia e a última coisa que Amélia queria nesse momento era contar pra alguém o que acabara de presenciar. Não queria que ninguém soubesse do ato cruel de Rogério, ela sentia por ele uma amor fraternal. Agora, estava com raiva, mas ainda era o Rogério... Porém, esse era o Rogério das drogas e era deste que ela sentia raiva. Sua opção não foi pensada, ela apenas saiu correndo daquele local, daquela casa. Não queria mais ver o corpo de seu irmão daquele jeito, não queria mais sentir aquela dor. Apenas saiu, procurando um pouco de paz. 
  Voltamos ao começo. Amélia guardava esse segredo. Não sabia como seria seu futuro, ou o que faria quando o dia amanhecesse. Só sabia o que estava sentido no agora. E continuava a chorar, cabeça baixa. A calçada em que ela estava, se encontrava imunda, possuía moradas e mais moradas de ratos. Ela queria poder fugir, e por um instante quis sumir dali. Cheia de dúvidas, de raiva e questões mal resolvidas Amélia encostou a cabeça na parede. E por um instante saiu de si, voou, adormeceu. Alcançando um êxtase de paz. A paz que procurava e que havia de ser restaurada em seu interior estava ali, era essa paz o que havia feito Amélia dormir, essa paz que havia feito-a não se questionar mais... Essa paz que apenas fez Amélia desligar-se do mundo.

Comentários

  1. É doce Julia... não posso dizer que a estória é linda, mas escreves lindamente e descreveste docemente a pobre Amélia.

    www.cchamun.blogspot.com.br
    Histórias, estórias e outras polêmicas.

    ResponderExcluir
  2. Uau, que tensão. Que medo, que dor Amélia! Criação esplêndida, retratou bem a dor da protagonista e soube nos entreter com os fatos, pela dramaturga. Até a próxima!

    ResponderExcluir
  3. Júlia,

    Você sempre surpreendendo. Adoro suas histórias, o modo como as tece, seu narrador intrometido. Lanço a pergunta: seríamos todos um pouco amélias?
    Um bjo poético

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, obrigada Felipe...
      Acredito que sim, porém cada um interpreta o seu sentimento de uma forma diferente da que Amélia interpretou o dela.
      Beijos!

      Excluir

Postar um comentário

O que achou do meu texto?

Postagens mais visitadas deste blog

Coração

- Oi, somos alunas aqui da faculdade e vamos te atender hoje. O que te trouxe aqui? - Dor no peito.  O ambulatório era de cardiologia, mas juraria que se eu fosse psiquiatra a atenderia melhor.  Colhemos a história.  - A senhora fuma?  - Três maços por dia.  A carga tabágica era de mais de 100 anos/maço. Porém, tudo culpa da ansiedade.   O que poderíamos fazer?   Sua impaciência. Sua vontade de sair do consultório para mais um trago era evidente.   Ela saiu. Nós esperamos.  O médico, enfim, chegou. Discutimos o caso. Passamos exames cardiológicos, um eletro daqui um eco dali. E assim, diagnosticamos problemas do corpo, mas jamais descobriremos da alma. Seu sofrimento. Sua solidão. Tudo que passamos pode ter sido em vão.   Agradecemos.   Ela agradeceu.  A consulta terminou, mas a lição ficou. A consulta pode até ter sido em vão, mas ela me tocou de coração. 

Francisco

  Mais um dia típico de verão. O calor insuportável. E lá vai Francisco, com uma mochila nas costas e de calças jeans, mencionarei que estava com uma camiseta básica – porém, preta – o que o fazia sentir mais calor do que estava. É, era um dia bonito devo confessar...  Parado esperando o sinal fechar para atravessar refletiu sobre o quão recente era sua cidade e quantas pessoas já haviam passado por ali. Imaginou pessoas com carroças, com roupas simples... Depois voou e imaginou algumas cortesãs... Mais um pouco e imaginou inúmeros drogados... Imaginou famílias felizes passeando... E sua mente virou um pouco de tudo. Com o sinal ainda fechado decidiu prosseguir pela calçada que estava afinal logo a frente haveria outro sinal... Sempre há vários sinais em cidades grandes, e do vermelho pro verde passam num picar de olhos a critica do Francisco era essa, que passavam tão rápidos que às vezes ele nem via o sinal abrir para pedestres...  Francisco observava atentament...

A casa de Dona Maria

Lá estava Maria lavando as meias de seu marido, uma de cada vez. A cada par enxaguado eram lágrimas junto às águas.  Maria era uma típica dona de casa. Subordinada ao marido. Não estava infeliz com a vida que levava. Ela amava cuidar dos filhos e ter tempo de arrumar seu lar. Os dias se passaram lentamente desde quando se casara com Alberto. Claro, ela havia se casado com o amor da sua vida, ou era nisso em que ela acreditava. Alberto, antes deles se casarem sempre levava flores, e a enchia de mimos... Ah, Alberto não era mais o mesmo. As pessoas mudam, porém Alberto tinha se desvencilhado de seus princípios...  Alberto era doce, carinhoso, amava Maria, queria ter três ou quatro filhos. Tinha um olhar carinhoso, uma energia esplêndida. Sonhava em ter uma casa, e aos 27 anos já estava estável. Já tinha um bom emprego em um escritório de advocacia. Era um bom advogado, nunca havia perdido nenhuma causa. E aos 48, ainda não tinha perdido causas, havia perdido apenas a ale...